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Suicídio: pare, pense e procure ajuda


Foto: Arquivo Pessoal - "Não tenha vergonha dos seus sentimentos. Esse vazio, essa angústia que consome sua vida, nada mais é do que uma doença que tem tratamento. Procure ajuda."
Foto: Arquivo Pessoal - "Não tenha vergonha dos seus sentimentos. Esse vazio, essa angústia que consome sua vida, nada mais é do que uma doença que tem tratamento. Procure ajuda."

Publicado em 03/09/2019 17:00 - Categoria: Opnião
Atualizado em 15/06/2020 22:09 - Escrito por: Marcelo Gris

Por Fernanda Gris.

 

Enquanto eu pensava em como começar esse desabafo, minha cabeça estava um turbilhão de informações, experiências vividas, ouvidas, lidas... passadas! Decidi escrever sobre esse assunto depois de saber que um amigo da família do meu marido cometeu suicídio na manhã de segunda-feira, 02/09/2019. Claro que, infelizmente, já ouvi vários outros relatos de suicídio, inclusive um amigo muito querido, “meu filhinho”, que antes de acontecer, deixou um “pedido de socorro” na sua rede social. Também o avô de um grande amigo-irmão, que ajudou nossa família quando era criança.

 

Então eu pensei: e se com um desabafo público, por uma experiência vivida, eu pudesse, de qualquer forma, ajudar alguém?

 

Esse mês é o chamado Setembro Amarelo, uma campanha criada pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). É o mês de prevenção ao suicídio. Lógico que é um mês simbólico, já que essa prevenção deve ser feita o ano todo.

 

As redes sociais se mobilizam com postagens de ânimo àqueles que pensam em tirar a própria vida, ou de consolo àqueles que ficam. E em uma dessas postagens li a seguinte frase: “quem quer se matar não quer terminar com a vida; quer acabar com a dor”. A autora dessa frase se chama Paula Fontenelle, é jornalista e seu pai suicidou-se em 2005. Alguns anos depois ela publicou um livro chamado Suicídio: Futuro Interrompido – Guia para Sobreviventes.

 

Essa frase me fez lembrar um período muito conturbado e confuso na minha vida. Eu tinha 23 anos quando surgiram os primeiros sintomas. “Mas, por quê? Qual motivo te levaria a pensar em suicídio? Você é inteligente, bonita, tem um futuro brilhante pela frente! Deixe de bobeira! Isso é falta de Deus! Falta ouro! Falta do que fazer! Frescura!”. Poderia passar horas escrevendo todas as palavras duras que já ouvi e tenho certeza que muitos ouviram ou ouvem ainda. Mas não tinha motivo específico, ou eram vários motivos acumulados durante a vida. Até hoje não sei explicar. Só sei que a vontade veio. Veio numa força e proporção que eu jamais poderia imaginar. Noites sem dormir, perambulando pelas ruas, sem rumo, até me dar conta que não sabia como havia chegado naquele lugar. Uma angústia sufocante; aflição incontrolável; sentimento de coração acelerado, quase saindo pela boca. Num primeiro momento, quando esses sentimentos tomam conta dos nossos pensamentos, não conseguimos dimensionar o problema. Achamos que pode ser só um dia ruim, uma tristeza qualquer, um aborrecimento passageiro.

 

Quando esse sentimento persiste, muitos continuam sem entender e acabam se isolando, ou entendem e sentem vergonha. Mas são poucos são os que entendem e procuram ajuda. Menos ainda aqueles que procuram ajuda de forma obrigatória e não aceitam a nova condição. Eu aceitei que não estava bem e decidi procurar ajuda para “arrancar” essa angústia de dentro de mim. Tive e tenho pessoas maravilhosas na minha vida que ajudaram e ajudam nessa constante caminhada.

 

Certa ida à consulta no meu psiquiatra, conversamos sobre esses sentimentos, já que na primeira consulta eu só chorei e solucei. Eu estava um pouco revoltada, dizendo que havia me tornado um peso para minha família. Sabiamente, e com um sorriso daqueles que acalma qualquer coração, ele disse: “você já pensou no sofrimento das famílias que perdem seus entes queridos desta forma? Não seria muito melhor tratar o sintoma e retomar as rédeas da sua vida?”. De certa forma o suicida tem pensamentos egoístas. “Nossa! Que absurdo falar que uma pessoa, além de passar por isso, é egoísta!”. O egoísmo nada mais é do que atitude ou pensamento voltado apenas para os próprios interesses, ou seja, eu me sinto fragilizado e apenas eu posso resolver isso, nada nem ninguém pode interferir, sequer saber. O que fazer nessas horas? Respirar fundo, ser racional e procurar ajuda; conversar com um profissional (psicólogo ou psiquiatra), desabafar com as pessoas que amamos. Já li situações em que a pessoa externava suas angústias nas redes sociais e alguém a acolheu. Mas acredito que essa forma é muito perigosa, pois ao mesmo tempo em que muitos querem ajudar, alguns poucos podem atrapalhar.

 

Mas a palavra-chave de toda essa situação é ACEITAÇÃO. Aceitar que somos seres imperfeitos e passíveis de erros e que, apesar da caminhada ser individual, o aprendizado é coletivo. Por exemplo: não existiria o amor, sem o ódio; o dia, sem a noite, a fome, sem a comida! Ambos se complementam.

 

Sabe aquela frase bem clichê - “você é especial para alguém” – Então, posso garantir que ela é real! Você é SIM especial para alguém. Você faz falta SIM. Somos eternos? Talvez não para o mundo inteiro, mas sim para nossos pais, amigos ou algum amor. Mesmo que sejam poucas pessoas, estas são suficientes para valer a pena continuar vivendo.

 

O que quero tentar explicar com esse depoimento-desabafo: tristeza é um sentimento comum a todos os seres humanos. É preciso distinguir a tristeza passageira, da tristeza destruidora.

 

Para quem passa por isso: não tenha vergonha dos seus sentimentos. Esse vazio, essa angústia que consome sua vida, nada mais é do que uma doença que tem tratamento. Procure ajuda.

 

Para quem tem alguém passando por isso: ame! ame! ame! ame! Quem passa por isso, na maioria das vezes, só precisa ser ouvido ou de um abraço, um sorriso. Os sintomas são difíceis de identificar. Muitas pessoas camuflam bem. Fique atendo às menores mudanças; no humor, nas atitudes, nas tarefas cotidianas ou banais. E, ao menor sinal de algo que leve ao suicídio, procure ajuda profissional.

 

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Fernanda Gris é administradora graduada em Guaraí e especialista em gestão de pessoas, atualmente residindo no município de Santa Helena de Goiás-GO, onde trabalha como servidora pública da prefeitura loca. E-mail: fergris@gmail.com - WhatsApp (64) 9 9228-4680.

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